Meio Ambiente

Cúpula de jovens lideranças climáticas é encerrada com carta de intenções e chamada para ação

Documento prevê ações relacionadas aos conhecimentos tradicionais e à participação de minorias nos debates e nas políticas de enfrentamento das mudanças climáticas

VVVV lendo a carta
Declaração Climática da Juventude foi lida pelas jovens Rayane Xipaia e Laura Miranda MartinsFoto: Raíra Saloméa

O encerramento da Cúpula Global da Juventude pelo Clima, preparatória para a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), foi marcado pela leitura da Declaração Climática da Juventude, documento elaborado pelos 500 jovens, de 39 países, que participaram do encontro durante esta semana, em Belo Horizonte. 

Na declaração, que serve como um chamado para a emergência climática, os participantes pedem que os jovens se empenhem em ações transformativas e inclusivas para o clima. No documento, as jovens lideranças globais reconhecem a educação como  essencial para o empoderamento de comunidades, para a construção de resiliência e para a proteção da biodiversidade. Tal educação, segundo o documento, deve prever a integração entre o letramento climático e os saberes tradicionais.

A declaração prevê cinco áreas prioritárias para futuras ações referentes ao clima: Finanças climáticas e fiscalização, com uma definição universal que guie a fiscalização e a mensuração dos impactos climáticos, além da alocação de recursos baseada em dados e pesquisas; Liderança jovem significativa e participação, que deve ocorrer por meio da participação dos jovens nas delegações e nos processos de tomadas de decisão, além da presença de comunidades indígenas e locais nos debates referentes ao clima; Justiça climática e equidade, que propõe o entendimento da relação entre clima e saúde, e a preservação das identidades culturais e das práticas locais, com a inclusão de mulheres, jovens, crianças e outras minorias.

As duas últimas áreas prioritárias apontadas na declaração são Conhecimentos tradicionais e soluções baseadas na natureza e Cidades sustentáveis e transição justa. A primeira trata da necessidade de que os governos vejam as comunidades tradicionais como parceiras para o desenvolvimento de soluções climáticas, ao mesmo tempo em que devem se esforçar para adaptar as cidades para o enfrentamento das mudanças climáticas. Já a última área se refere à necessidade da democratização das soluções climáticas por meio da transição energética e da descarbonização.

A ministra Marina Silva participou do evento por videoconferência
A ministra Marina Silva participou do evento por videoconferência Foto: Raíra Saloméa

Do ‘ter’ para o ‘ser’
Os discursos de encerramento da cúpula defenderam a preservação da biodiversidade como condição essencial para a efetividade do combate à crise climática. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou que os jovens possuem uma força que lhe dá esperança de um futuro melhor. Ela disse que os temas trazidos pela cúpula, como a ciência, a liderança e a ação transformadora, são os pilares fundamentais para a grande mudança econômica que o Brasil e o mundo precisam sofrer para enfrentarem a emergência climática.

“A Declaração Cimática da Juventude expressa o desejo de um futuro mais justo, inclusivo e ambientalmente sustentável. Porém, essa sustentabilidade não ocorre apenas nas dimensões econômica e ambiental, mas deve tratar da maneira de ser como uma nova forma de sermos no mundo. A base do processo civilizatório deve envolver o homem consigo mesmo, com a natureza e com os outros homens”, refletiu.

A ministra relembrou sua trajetória de luta que teve início aos 17 anos, ao lado do ambientalista Chico Mendes e da urgência de que providências efetivas sejam tomadas urgentemente. “Nós que já lutamos por décadas precisamos passar o bastão para os jovens que não são apenas o futuro, mas também o presente. Em todas as COPs anteriores, falávamos do planejamento para o futuro, mas o momento agora é de ação. Vivemos um contexto geopolítico altamente desafiador e preocupante, então é necessário agir em prol de um mundo politicamente democrático, ambientalmente sustentável e socialmente justo. O Brasil está comprometido em liderar pelo exemplo, por meio de ações que envolvam governos, empresas e segmentos da sociedade. Estamos atrás de uma mudança de padrão civilizatório, saindo do ideal do ‘ter’ para o ideal do 'ser’.”

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Ricardo Gonçalves: não haverá futuro sem ações imediatas
Foto: Raíra Salomé

O professor e diretor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, Ricardo Gonçalves, destacou que a cúpula demonstra o esforço coletivo pela proteção do meio ambiente. Para ele, a sociedade necessita de jovens líderes comprometidos e dedicados. O professor citou a música Para não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, para destacar a emergência das ações que precisam ser tomadas.

“O momento que vivemos é urgente e não há futuro se não agirmos agora. Os desastres climáticos estão relacionados às desigualdades e há gente que sofre mais com os seus impactos. Os jovens precisam agir urgentemente, pois ‘quem sabe faz a hora, não espera acontecer’". 

Aquecimento para a COP30
Waleska Queiroz, representante da liderança jovem do Pará, falou sobre a importância do Brasil sediar a próxima edição da COP30, que ocorre em novembro, em Belém. Em discurso emocionado, a jovem abordou o fato de que as mudanças climáticas não surgem isoladas do racismo ambiental, das injustiças sociais e da exclusão histórica sofridas pelas comunidades indígenas, quilombolas e demais minorias. A ativista afirmou que a juventude da Amazônia deve ser lembrada não apenas em histórias de superação, mas como parte fundamental da construção de soluções reais. 

“Se mantivermos a desigualdade, qualquer documento ou declaração sobre o clima será vazio, e a agenda climática não avançará. É necessário enfrentar as injustiças estruturais e implementar a justiça climática, que ocorre por meio da participação social nas tomadas de decisão em temas relacionados ao clima", disse.

Waleska também se posicionou, juntamente com os outros jovens, como peça fundamental para a transformação. “Somos uma geração que cria, constrói e soluciona. Somente com o reconhecimento dos saberes e proteção dos povos originais, a agenda climática poderá se conectar com quem mais sente as mudanças na pele.”

Para Waleska Queiroz, que a mudanças climáticas estão relacionadas às desigualdades
Para Waleska Queiroz, as mudanças climáticas estão relacionadas às desigualdades
Foto: Raíra Saloméa

Christopher Ball, do Global Youth Leadership Center, parabenizou os 10 jovens campeões do clima que receberão 1 mil dólares cada para implementar projetos de ação climática comunitária em regiões vulneráveis. “Celebrei o meu aniversário há pouco tempo e participar desta cúpula foi o melhor presente que recebi, pois me deu muita esperança de um futuro melhor. Sempre ensinei os meus estudantes a lembrarem que o estudo, sem a ação, não serve. Peço desculpas pelos danos que a minha geração causou ao meio ambiente. Eu não devo viver para ver o mundo que os jovens vão criar, mas espero que ele seja mais justo, sustentável e melhor do que aquele que a minha geração deixou", concluiu.

Cúpula Global da Juventude pelo Clima 
Realizada pela organização internacional Global Youth Leadership Center (GYLC) em colaboração com a UFMG, a cúpula visou expandir o conhecimento da juventude sobre a ciência climática, desenvolver diferentes habilidades de liderança e capacitar essas novas vozes para que possam desenvolver ações de impacto no combate à crise climática em seus países e em suas comunidades. 

O evento, que ocorreu entre 2 e 5 deste mês em Belo Horizonte, reuniu 200 jovens de forma presencial e 300 on-line. Eles participaram de debates e encontros para promover o conhecimento sobre ciência climática, desenvolver habilidades de liderança e ações de capacitação.

O GYLC é uma organização internacional sem fins lucrativos que expande o conhecimento dos jovens sobre ciência climática, desenvolve habilidades de liderança e engaja os jovens em ações climáticas por meio de programas em países vulneráveis ao clima no Sul Global. A cúpula foi viabilizada por meio de parcerias com o Centro de Conhecimento para a Biodiversidade, com o ICB-UFMG, com a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e a Itaminas.

Jovens lideranças se reuniram em Belo Horizonte para debater as mudanças climáticas
Jovens lideranças que se reuniram em Belo Horizonte para debater as mudanças climáticas Foto: Raíra Saloméa

Luana Macieira