Religião pode ser fator de ascensão, mas também de estagnação no Brasil, conclui artigo de professor da UFMG

Estudo revela que participação em igrejas evangélicas impulsiona a carreira, mas a força dos laços sociais pode perpetuar o ciclo de pobreza

A religiosidade, especialmente a evangélica pentecostal, pode ser vetor de ascensão social ao sinalizar, para os empregadores, características como disciplina, ética de trabalho e confiabilidade dos candidatos às vagas de emprego. Ao mesmo tempo, a força dos laços sociais dentro dessas comunidades, majoritariamente compostas de indivíduos de baixa renda, pode contribuir para a estagnação social.

Esse é o principal achado de estudo conduzido pelo professor Silvio Segundo Salej Higgins, do Departamento de Sociologia da UFMG, em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. As conclusões da pesquisa estão descritas no artigo Earnings attainment in the three main cities of Southeastern Brazil: social networks and communities of worship, publicado na mais recente edição da revista Springer Nature.

“O objetivo principal da pesquisa foi identificar se as comunidades de culto religioso, particularmente de perfil pentecostal, operam como mecanismos eficazes, via formação de redes de contato, para a inserção no mercado de trabalho”, relata Salej Higgins. Desenvolvida em 2021, a pesquisa teve participação de 900 indivíduos, que foram questionados sobre a obtenção de seus empregos, a frequência de contato com a pessoa que os indicou para a vaga, e se essa pessoa fazia parte de sua comunidade religiosa.

Proteção social

Baseada na teoria do sociólogo norte-americano Mark Granovetter, a pesquisa demonstrou que, embora os laços fortes — como os estabelecidos entre familiares e amigos próximos — sejam importantes como rede de apoio, o acesso a melhores oportunidades de trabalho se dá, principalmente, por meio de laços fracos, ou seja, contatos mais distantes e diversificados.

A maior parte dos respondentes, de acordo com o autor do estudo, declarou ter encontrado seu posto de trabalho por meio de uma indicação face a face. Nos casos de candidatos e informantes com laços fortes, apesar de as indicações serem mais efetivas, prevalecem as conquistas de empregos com menores rendimentos. “As redes sociais dos trabalhadores de menor qualificação são estabelecidas com seus pares de baixa remuneração. Os laços fortes, em geral, oferecem oportunidades semelhantes, limitando o acesso à informação sobre vagas mais qualificadas e com melhor remuneração. Isso põe em evidência a segmentação estrutural do mercado de trabalho e as barreiras de mobilidade social. Em outras palavras, as redes de solidariedade podem acabar aprisionando o indivíduo em um ciclo de pobreza”, observa Silvio Higgins.

O professor reconhece, no entanto, que os laços fortes, em contextos de vulnerabilidade social, são fundamentais para a sobrevivência e a manutenção da autoestima dos indivíduos. “As redes atreladas às relações de parentesco e de amizade são, portanto, um mecanismo de proteção social”. 

Guinada religiosa

Para o professor, a perspectiva das redes sociais deve ser incluída em pesquisas e estatísticas oficiais sobre o mercado de trabalho. “Precisamos bater na porta dos institutos oficiais de pesquisa, como o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], para incorporar esse enfoque sobre redes de contato e mundo religioso em suas pesquisas. Assim, superaremos a falta de representatividade nacional das nossas amostras”, entende.

Silvio Higgins sugere que sua pesquisa seja desdobrada na produção da primeira amostra nacional com a finalidade de desvendar de que forma a guinada religiosa do Brasil — que passou de país católico a plurirreligioso — mudou a dinâmica do mercado de trabalho, incorporando a raça e o gênero como mecanismos que geram efeitos combinatórios quando estudados de forma conjunta com a filiação religiosa.

(Texto de Matheus Espíndola, da Agência de Notícias UFMG)

Assessoria de Imprensa UFMG

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