Livro sobre a memória como espaço de litígio na obra de Graciliano Ramos é publicado pela Editora UFMG
Uma releitura crítica da literatura por meio da memória
O livro Incomensurável comum: políticas da escrita em Graciliano Ramos propõe uma interpretação original e ousada sobre a maneira como a memória é utilizada como ferramenta literária na obra do consagrado autor brasileiro. Escrita por Willy Carvalho Coelho, a obra parte de uma abordagem comparativa, com base em Memórias do cárcere (1953), para, então, explorar a dimensão histórica, cultural e epistemológica das imagens narrativas.
Baseado na tese de doutorado do autor, defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFMG e vencedora do Prêmio UFMG de Teses em 2015, o livro também examina a obra Infância (1945) e passagens de outros textos ficcionais de Graciliano. A proposta é entender como a memória e a política se entrelaçam na literatura, criando um campo de tensão e reflexão crítica.
Willy Carvalho Coelho utiliza a ideia de litígio – disputa ou contenda – como eixo conceitual para investigar a relação entre memória e discurso na obra de Graciliano. Para o autor, a memória não é apenas um repositório de imagens ou lembranças, mas um espaço de combate em que vozes discordantes buscam se afirmar. “A noção de litígio se liga sub-repticiamente à de política, permitindo esclarecer os inconciliáveis que são agrupados na ideia de memória ou discurso”, explica Willy na introdução.
Graciliano Ramos, o sujeito e memória
Ao lado de Machado de Assis e Guimarães Rosa, Graciliano Ramos é considerado um dos grandes nomes da literatura brasileira. Nascido em 1892, no sertão alagoano, o autor é reconhecido por sua escrita crítica e pelo aprofundamento em questões culturais, sociais e políticas de sua época. Em Incomensurável comum, sua obra é revisitada para evidenciar como a memória não apenas relata, mas também questiona e transforma a experiência histórica.
Organizado em cinco capítulos, o livro aborda temáticas como o uso da memória na formação de narrativas (Reconstituição de fatos e juízo), as relações entre sujeito e poder (Sujeito, política e poder) e o papel do dissenso na racionalidade política (Coletivo com dissenso). Cada capítulo aprofunda a análise das estratégias narrativas e discursivas empregadas por Graciliano para articular memória, experiência e resistência.
Em suas reflexões, Willy Carvalho Coelho considera o sujeito como um efeito direto do poder e da linguagem. Inspirado em teóricos como Michel Foucault e Émile Benveniste, o autor argumenta que o relato autobiográfico e as narrativas em primeira pessoa são chaves para compreender não apenas o contexto histórico, mas também os mecanismos de controle e resistência presentes na literatura.
Ao destacar a memória como uma categoria incomensurável e paradoxal, Incomensurável comum desafia o leitor a refletir sobre como os textos de Graciliano Ramos articulam questões de subjetividade, política e racionalidade. O livro não apenas analisa, mas também convida a repensar os limites e as possibilidades da crítica literária no Brasil.
Sobre o autor
Willy Carvalho Coelho é doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG, além de graduado em Psicologia. Essa formação interdisciplinar enriquece sua análise, proporcionando um olhar aprofundado sobre as relações entre literatura, memória e política. Seu livro é uma contribuição valiosa para os estudos literários e um convite à releitura crítica da obra de um dos maiores escritores da literatura brasileira.
Ficha técnica:
Incomensurável comum: políticas da escrita em Graciliano Ramos
Willy Carvalho Coelho
Editora UFMG
Área: Literatura
Coleção: Origem
2024, 1ª edição, 278p. ISBN:978-65-5858-107-9